terça-feira, 18 de novembro de 2014

FOFOCA DA GAROTADA

01
BOTAFOGO E FLUMINENSE
QUE BREVE IRÃO SE ENCONTRAR
SÃO TIMES PIONONENSES
QUE A VITÓRIA VÃO VIBRAR
02
OS TIMES SERÃO FORMADOS
POR ATLETAS DE VALOR
SÃO TODOS BEM EQUIPADOS
E POSSUEM MUITO VIGOR
03
DE UM POR UM CITAREI
O NOME DOS JOGADORES
PRA QUE  TODOS RECONHEÇAM
OS SEUS DEVIDOS VALORES
04
NO BOTAFOGO TEREMOS
LIBÂNIO E ZEZINHO GOMES
ZÉ JOSIAS E TOMAZ
SÃO ATLETAS DE RENOME
  
05
SEU CARLOS E QUINCO SÁTIRO
MOSTRARÃO QUE NÃO SÃO MOLE
E  PELA PONTA DIREITA
JOGARÁ ANTÔNIO ACIOLE
06
JOÃO AMORIM E JOÃO NÔ
JUNTAMENTE A JOAQUIM NEM
LUTARÃO COM MUITO ARDOR
PRA NÃO PERDER PRA NINGUÉM
07
E O GOLEIRO ESCOLHIDO
PELA SUA AGILIDADE
É O GRANDE ATLETA ARNALDO
TEM GRANDE CAPACIDADE
08
O FLUMINENSE VÃO VER
É UM TIME DE VALOR
POIS POSSUI CHICO TETÊ
ANÍBAL E ISRAEL NÔ
09
NA PONTA JOGA O SANTANA
NA LATERAL JOÃO CIRILO
JOGARÃO COM MUITA GANA
PARA MOSTRAREM SEU BRILHO

10
MANOEL HENRIQUE E ABEL
É DUPLA MUITO FAMOSA
CUMPRIRÃO O SEU PAPEL
AO LADO DE ZUZA ROSA
11
ZÉ GRANDE PELA ESQUERDA
POSSUI UM PREPARO IMENSO
E PELO LADO DIREITO
O FAMOSO JOÃO LOURENÇO
12
O GOLEIRO FLUMINENSE
É O BROTO JÚLIO BILÓIA
NA COPA PIONONENSE
LUTARÁ POR MUITA GLÓRIA
13
UM MASSAGISTA É ODETO
O OUTRO É JOAQUIM ROLDÃO
O LOCUTOR ZUCA BERTO
TODOS PARTICIPARÃO
14
OS BANDEIRAS CITAREI
É ALFREDO E JOÃO MEDRADO
EU COM ELES FICAREI
A OLHAR PRA TODO LADO

15
POIS COMO ENCARREGADO
ME  ESCALEI COMO JUIZ
IREI CORRER UM BOCADO
MAS ME SAIREI FELIZ
16
POR PRECISAR DE UM JOVEM MÉDICO
E NÃO EXISTIR AQUI
CONVIDEI O DR. MOURA
EM PICOS DO PIAUÍ
17
A EQUIPE ESTÁ COMPLETA
DE ELEMENTOS CAPAZES
A PRÓPRIA IDADE MOSTRA
NASCERAM DE DEZ PRA TRAZ
18
PARA A COPA DE OITENTA
ELES IRÃO SE EQUIPAR
E COM AS JOVENS DE SETENTA
DEPOIS IRÃO FARREAR
19
TERÁ DEPOIS DA PARTIDA
UMA QUADRILHA ANIMADA
SERÁ A FESTA JUNINA
POR TODOS COMEMORADA

20
E O SR. SANTO BERNARDO
COM GOSTO QUIS  EMPRESTAR
O SEU SALÃO EQUIPADO
PRAS DAMAS SE PREPARAR
21
A NOITADA DE SÃO JOÃO
SERÁ DAS MAIS ANIMADAS
IRÃO SOLTAR FOGUETÃO
VAI SER MUITO BADALADA
22
ESTA FESTA BADALADA
TERÁ UM BOM SANFONEIRO
O SEGUNDO SEM PRIMEIRO
É O CANDÓIA ANIMADO
23
NO COPO ELE NUNCA TRISCA
NA SANFONA ELE TOCA
NA GARRAFA ELE PETISCA
E NA CACHAÇA ELE EMBORCA
24
ESCOLHÍ PRA MINHA DAMA
A SENHORA JÚLIA SELVINA
POR A MAIS PEQUENINA
E A MAIS BELA RAINHA

25
SEU  QUINCO PELO BOM GOSTO
SEMPRE RECEBEU LOUVORES
ESCOLHEU PARA SUA DAMA
A JOVEM MARIA DAS DORES
26
MAS COM ESSA BRINCADEIRA
JÁ POR TODOS COMENTADA
TEM ALGUÉM PEGANDO CORDA
E SE MOSTRANDO ZANGADO
27
ANTES NÃO TINHA EXPLICADO
QUANTO AO MODO DE VESTIR
POR ISSO ESTÃO REVOLTADOS
E JÁ QUERENDO SAIR
28
LUZIA VEIO AVISAR
QUE PROCUREM OUTRO PAR
POIS SENDO DE MINI SAIA
ELA NÃO PODE DANÇAR
29
ZÉ JOSIAS JÁ SAIU
BERMUDA NÃO QUER VESTIR
ZÉ GRANDE JÁ DESISTIU
E QUINCO SÁTIRO QUER SAIR

30
ENFRENTEI A DIVERSÃO
E  NÃO QUEREM DESFRUTAR
ALEGANDO QUE SOU EU
QUE NÃO SEI ME COMPORTAR
31
ESTÃO TODOS  VINDO ENCIMA
A PONTO DE ME PEGAR
TEM UM EM CADA ESQUINA
QUERENDO ME PROVOCAR
32
OS JOVENS DA MINHA IDADE
JÁ NÃO QUEREM MAIS DANÇAR
EU ENFRENTEI O PAGODE
E NÃO QUEREM COOPERAR
33
MAS DEVIDO A ESSAS ENCRENCAS
CONTRATEI MÁRIO AGUIAR
QUE É HOMEM DE PACIÊNCIA
E VAI TUDO APAZIGUAR
34
E COM TUDO APAZIGUADO
ESPERO REALIZAR
JOGO E FORRÓ ANIMADO
PRA TODOS COMEMORAR

35
É A VINTE UM DE JUNHO
A GRANDE FESTA JUVENIL
E EU FAREI  O CONVITE
PRA TODO NOSSO BRASIL
36
O LOCAL DA GRANDE FESTA
É NA QUADRA DO MERCADO
LÁ TERÁ CADEIRA E MESA
PRA TODOS OS CONVIDADOS
37
PRA  TODOS FICAR CIENTE
DO AUTOR DESSE TRABALHO
SOU UM JOVEM CONSCIENTE
JOÃO  JOVINO DE CARVALHO

AUTOR: JOÃO PEREIRA
PIO IX , MAIO DE 1980







quinta-feira, 14 de agosto de 2014

EU



Nasci calmo e paciente
Mas não sei  me acomodar
E com muita  persistência
Estou sempre lutando para melhorar.

Inquietação e perseverança,
São características fortes a me acompanhar.
Jamais desisto daquilo que é possível
E tenho bom senso para saber  diferençar.

E assim eu vou levando a vida
As vezes caindo ou a tropeçar
Mas sempre levantando e reagindo
Com a cabeça erguida e sem desanimar

Pois sou consciente que a vitória
Pertence a quem não desiste e vive a trabalhar,
E é assim que conduzo a minha vida
Deixando a marca de quem sabe ousar.

Luis Pereira de Alencar
14 de agosto de 2014.




VIVER É LUTAR



A intranquilidade,
O vai e vem da vida
Às vezes nos deprime
E faz desanimar.

Nos deixa pensativo e indecisos
Imaginando se tudo isso vale a pena.

Pois viver tranqüilo
Com mais simplicidade
Sem se envolver com tudo e com todos,
Parece ser mais fácil e mais cômodo.

Porém só consegue assim viver,
Pessoas alheias às coisas deste mundo.

Porque viver, a meu ver, só vale a pena,
Se for lutando para melhorar,
E melhorar requer muita luta e sacrifício
E o acomodado jamais conseguirá.

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Encontro com o passado - III

Documento faz referência à idade de João Bilé e Theresa no dia do casamento
Certidão traz primeira assinatura de Theresa com nome de casada
 



Por Rômulo Maia

O sol está a pino. É quase meio dia. Caminho apressado pela calçada quando uma voz me detém:

“Ei Rômu, espera aí.”

Era Nivardo Saldanha. Do interior de uma sala da Prefeitura, me viu passar e chamou afim de jogar conversa fora. Amigo da família de longas datas, Nivardo é profundo conhecedor da árvore genealógica das famílias povoadoras de Pio IX (PI). O que lhe impede de ser rica fonte de pesquisa é a cerveja, companheira quase inseparável. E pelo hálito logo percebi que os dois já haviam andado juntos naquela manhã.

Mesmo assim compartilho meu achado no livro da Paróquia de Nossa Senhora do Patrocínio. Sei que o assunto lhe desperta interesse. “Foi mermo? João Bilé era viúvo”, me pergunta admirado. Confirmo e falo da intenção de ampliar a pesquisa nos arquivos do Cartório de 2º Ofício João Elói Bezerra [foto abaixo].       

Com ar sério e tom protocolar, Nivardo pede um particular, me puxa para o interior de uma sala vazia da prefeitura e confidencia:

“Lá você num consegue nada. Já tentei num sei quantas vez e nunca me deram nada. Nenhum documento!”

“Mas não custa tentar”, respondo.

E ele diz: “Pois eu vou com você pra assistir a conversa.”

Ganhamos a rua. O cartório dista dali apenas umas cinco casas.

Nomes rabiscados numa garra de papel



Encosto no balcão de madeira e espero Paulo Bezerra, dono do Cartório, despachar uma pessoa. Nivardo Saldanha, ao meu lado, apenas observa. Tenho a leve impressão que ele torce para ter a previsão confirmada.

Ao desocupar, Paulo nos dá atenção. Apresento a demanda: desejo pesquisar os óbitos registrados em Pio IX entre os anos de 1927 e 1930. A maior vontade é descobrir a data precisa do nascimento e morte de João Carlos de Alencar e Theresa de Alencar Maia. Quem sabe até a causa do óbito de ambos.

O dono do Cartório me olha em silêncio. Depois puxa uma garrinha de papel em branco, pede que eu repita o nome do casal e anota. Justifica, então, que os arquivos são de manuseio delicado e que não pode me dar acesso. Mas promete ele mesmo buscar.

Não chegou a ser um balde de água fria... só uns respingos.

Será que Nivardo tinha razão? Raciocino que uma pessoa sem interesse na história de João e Theresa dificilmente faria uma pesquisa acurada. Mas não insisto. Solto um “Tá bom!” dos mais chochos e pergunto que dia retorno.

“Hoje mesmo, umas quatro da tarde. Se o Cartório tiver fechado, pode chamar aqui em casa”, orienta Paulo.

Saio de lá sem olhar para os lados. Sinto que Nivardo pode mangar da minha cara.    

Quebrando a cara

Quando dou conta o relógio já marca cinco e meia da tarde. A tarde passou e esqueci de retornar ao Cartório. Pior: aquele é horário de janta. Quem já se viu chegar na casa dos outros na hora da refeição? Tremenda falta de educação.

Faço hora até anoitecer e chamo Luis Pereira, meu pai, para ir comigo até a casa de Paulo Bezerra. Ele topa.

Mal estacionamos o carro e noto movimento no interior da residência. Parece que Paulo já nos esperava. Ele se achega ao portão e, enquanto tenta destrancar o cadeado, manda sem arrodeio:

“Procurei nos registros de 1927 até 1935 e não achei nada de nenhum dos dois.”

Luis Pereira pesquisa documento observado por Paulo Bezerra, dono do Cartório João Elói Bezerra


O balde entornou na minha cabeça. Porém, antes que eu sentisse a água fria escorrer pelo espinhaço, Paulo prossegue:

“Mas achei o livro onde tem a ata do casamento civil deles. Serve?”

“Posso ver?”, pergunto feito gente besta. Se Paulo teve o trabalho de procurar o documento, faria sentido não me deixar ver? Acho que por isso mesmo ele sequer respondeu. Apenas atravessou a rua, rumando para o Cartório.

O livro já nos esperava sobre uma mesa. Ele folheia com cuidado e abre na página do nosso interesse.

Theresa vira “Dona” e muda assinatura

A tarde cai sobre a mata verde. É março, tempo de chuvas no sertão.

São 17h de 13 de março de 1921. No horário em que os bichos buscam aconchego para dormir, João e Theresa preparam-se para confirmar sua união. Três dias antes eles já haviam recebido as bênçãos da Santa Igreja Católica.

A cerimônia acontece na própria casa de João Bilé em Pio IX (PI). Além do casal, estão presentes o segundo suplente de juiz em exercício Osterno Ernesto de Alencar, o oficial privativo do registro Antônio Luiz Carlos de Alencar e as testemunhas Carlos de Alencar Lima e Eugenio Gomes de Alencar.

João tem trinta anos, quatro a mais que Theresa, então com 26. Lavrador nascido no Ceará, ele casara a primeira vez aos 21 anos, mas logo enviuvou. A união com Theresa é a esperança de constituir novamente uma família.

A pena corre sobre o papel. A letra grande e caprichada já ocupa uma folha e meia do livro. Na ata preparada por Antônio Luiz, representante do Cartório, constam o horário do casamento, o nome de todos ali presentes, a filiação e a naturalidade dos noivos.

O documento [imagem abaixo] trata Theresa como “Dona”, condição adquirida a partir do casamento no religioso. Também é registrado ali seu novo sobrenome. O “Arraz” desaparece da assinatura, substituído pelo “de Alencar” do esposo.

A partir dali, legalmente e para todos os efeitos, a jovem e solteira Theresa Arraz Maia sai de cena para a entrada de Dona Theresa de Alencar Maia.



Agora todos devem assinar o termo, validando, assim, a cerimônia. Entretanto, João Carlos, o João Bilé, é analfabeto. Não sabe ler nem escrever. A saída é pedir que a testemunha Carlos de Alencar Lima rubrique em seu lugar.

Resolvido o problema, assinam, nesta ordem: o juiz Osterno Ernesto de Alencar, o representante do noivo João Carlos de Alencar, a noiva Theresa de Alencar Maia, as testemunhas Carlos de Alencar Lima e Eugenio Gomes de Alencar e, por fim, Antônio Luiz Carlos de Alencar, oficial de registro.

João e Theresa estão, enfim, casados no civil e religioso. São marido e mulher pela lei e pela fé.

Arrepio de satisfação


Leio até a última linha e um arrepio de satisfação percorre o corpo. “Nivardo queimou a língua”, comentei com Luis Pereira. As certidões de óbito não foram localizadas, mas consegui acesso a um documento tão valioso quanto.

Naquela certidão consta, pela primeira vez, uma referência à idade do casal. A partir disso concluo que João Bilé, que casou aos 30, nasceu em 1890 ou 1891. Quando faleceu, em 1927, tinha 36 ou 37 anos.

Já Theresa nasceu em 1894 ou 1895. Ao falecer – no final de 1929 ou início de 1930 – tinha entre 34 e 35 anos.

(A imprecisão quanto ao ano de nascimento de ambos deve-se ao fato de não haver certeza se João e Theresa já haviam aniversariado quando dos casamentos, em março de 1921.)

O documento traz ainda um achado único: naquela folha, pela primeira vez, Theresa assina com seu nome de casada: Theresa de Alencar Maia.

Mais perguntas

Mesmo sabendo que já percorri valiosas trilhas, ainda há perguntas sem respostas. A mais intrigante? Quem foi Emília Alencar, primeira esposa de João Bilé?

(continua) 

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Encontro com o passado - II

Arquivo da Paróquia de Pio IX (PI) revela detalhes da vida do casal João Bilé e Theresa Arraz 


Local onde João Bilé caiu sem vida no ano de 1927

Por Rômulo Maia

Encontrar o local onde faleceu meu bisavô João Carlos de Alencar, o João Bilé, foi o bilhete de partida para uma viagem ao passado. (contei essa história no post “Encontro com o passado”. Leia AQUI.) Um caminho cheio de veredas enevoadas e cobertas de poeira. Para caminhar por elas é preciso paciência, guias dispostos e ter cuidado para não se frustrar com falsas expectativas. A recompensa vem na forma de papeis antigos e histórias boas de contar sentado na calçada. 

O passar dos anos apagou muitas informações desses antepassados. Não há, por exemplo, qualquer fotografia ou pintura do casal João Carlos de Alencar e Theresa de Alencar Maia. Suas datas de nascimento e morte também são dados ainda ocultos. Porém, pesquisas feitas nos últimos dias lançaram pequenas réstias de luz sobre o que antes era apenas breu.

Repetindo o que disse acima, a cruz foi somente o ponto de partida. Estar no lugar onde João Bilé caiu morto em outubro de 1927 mais atiçou do que trouxe respostas. Garimpar outras memórias e arquivos foi passo natural. A sede da Paróquia de Pio IX era um bom local a ser visitado.

O passado sai do armário


Etiqueta do livro  o livro onde estão registrados os casamentos religiosos realizados em Pio IX (PI) entre os anos de 1910 e 1922


Um sol de rachar juízo ilumina Pio IX naquela terça-feira, 22 de julho de 2014. Entro na sala simples por volta de 10h da manhã. A funcionária da Paróquia de Nossa Senhora do Patrocínio me olha por cima dos óculos com uma interrogação no semblante.

Me apresento e digo o que procuro. De pronto ela levanta, puxa um livro de um armário e deposita-o sobre a mesa. Apontando uma cadeira, diz: “Pode sentar e pesquisar a vontade.”

Sede da Paróquia de Pio IX (PI)


Ali estão os registros de todos os casamentos realizados entre os anos de 1910 e 1922. Abro as páginas amareladas e vou devorando linha por linha com ansiedade. Nomes, casais, testemunhas, datas... Até que me detenho na folha 87. O que procuro me esperava lá. Sorrio e comemoro em pensamento: “Achei!”

E, então, mergulho no passado. Um salto de 93 anos.

O viúvo e a paroquiana

Igreja Matriz de Pio IX (PI) em sua arquitetura original


Quinta-feira, 10 de março de 1921. Em silêncio ou, no máximo, cochichando, o casal aguarda. A economia de palavras e sons é condizente com o local. Eles estão na casa de Deus, onde nenhum alvoroço é bem visto.

João está mais tranquilo. Sabe o que é casar. Viúvo de Emília Alencar, aquela é a segunda vez que sobe ao altar. Mas para Theresa tudo é novidade. Moça do seu tempo, nunca passara por situação parecida.

O Cônego Miguel dos Reis Mello chega, cumprimenta o casal com formalidade e inicia a cerimônia. Estão ali, sob o teto da Igreja Matriz de Pio IX, o religioso, os noivos João Carlos de Alencar e Theresa Arraz Maia e duas testemunhas: José Arraz Maia e Thomas Gomes de Alencar.

O rito é simples. Ele, viúvo, filho de Gabriel de Moraes Rêgo e Liberalina Maria de Alencar, diz “Sim!” para ela, natural e paroquiana da freguesia de Pio IX, filha legítima de Galdino de Barros Arraz e Isabel do Monte Maia. São, agora, marido e mulher, até que a morte os separe. (O que não tardaria a acontecer.)

A cerimônia é registrada em apenas 11 linhas, ocupando apenas 1/3 de folha. Ao final da ata, somente o Cônego Miguel dos Reis Melo assina. A união está consolidada com as bênçãos da Igreja Católica. 

Registro do casamento de João Carlos e Theresa Arraz - clique AQUI para ampliar


A descoberta e uma valiosa dica

Ao buscar os arquivos da Paróquia, tinha como foco descobrir a idade de João e Theresa. A informação, entretanto, não constava no livro de registro dos matrimônios. Mera formalidade da época, o texto padrão escrito pelo Cônego é castrado de detalhes.

Fotografo a página para ler com calma depois. A letra em estilo clássico dificulta a compreensão de algumas palavras. Por exemplo: somente em casa, com a imagem ampliada na tela do computador, “traduzo” que João Bilé já fora casado uma primeira vez. A informação está nas linhas cinco e seis da ata:

“(...) elle viúvo por falecimento de Emília Alencar (...)”

Após ler e reler diversas vezes o documento, transmito as novidades para alguns familiares. Lamento não ter descoberto a idade dos antepassados, mas prometo aprofundar as buscas, mesmo sem saber por onde recomeçar. Mas não tardou surgir uma valiosa dica. 


Veio de Teresina (PI). Em tratamento de saúde na capital do Estado, Francisco de Alencar Maia, o Chico Arrais [foto acima], 91 anos, filho de João Bilé e Theresa Maia, manda avisar. É a filha Joiceneide Maia quem me telefona:

“Contei as novidades para papai. Ele sugeriu que você procure no Cartório. Pode ser que tenha alguma coisa registrada por lá.”

É o que faço ao desligar o telefone.

(continua)   

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Encontro com o passado - I

Família encontra local onde antepassado faleceu há 87 anos
Local era demarcado por cruz e fica na margem de estrada abandonada




Por Rômulo Maia

21 de julho de 2014. Guiados pela memória de Adalberto Antão de Alencar, percorremos veredas antigas e abandonadas em busca de nossa história. Aos 74 anos, ele chama pelas lembranças de menino e nos leva para uma jornada no tempo.

A morte de João Bilé

O ano é 1927. João Carlos de Alencar, o João Bilé, caminha pela estrada com o filho Francisco, então com 4 anos. A paisagem que os cerca é árida e cinzenta. O sol inclemente do mês de outubro expulsara há muito o verde que as gotas do inverno fizera brotar.

Por um momento Francisco se distrai. E, quando dá conta, encontra João Bilé caído na margem da estrada, desacordado. Ainda destreinado das perversidades da vida, pensa que o pai dorme um sono profundo. Bilé não acorda por nada. O menino então, em carreira desabalada, busca por ajuda nas fazendas próximas.

Chegando ao local, os mais velhos constatam a morte do agricultor. Morte súbita, sem dor ou chances de socorro. João Bilé faz a derradeira viagem deixando no mundo o filho Francisco e a esposa Teresa de Alencar Maia grávida de 7 meses – na barriga, João, que nasceria dali a dois meses.

O lugar onde Bilé tombou foi demarcado com uma cruz, mas permaneceu oculto e esquecido por longos anos, desde quando a antiga estrada caiu em desuso. Quando menino, Adalberto Alencar cruzou muitas vezes aquele marco. Morava na fazenda Jardim, a 1 quilômetro dali. “Passei muito por aqui. Era até costume a pessoa botar uma pedra no monte sempre que passava pela cruz”, relembra.

Reencontro com o passado


Foi puxando por essas lembranças que Adalberto guiou um neto e dois bisnetos de João Bilé – Joice Melo, Diogo e Rômulo Maia de Alencar, respectivamente – ao local onde o antepassado morreu. Completava a comitiva Luis Pereira de Alencar, casado com Joicileide Melo, neta de Bilé.

A viagem começou na cidade de Pio IX. Percorremos 6 quilômetros de carro até a fazenda Jardim. O restante do percurso foi a pé – uma caminhada de mais ou menos 1 km mata a dentro.

Apesar do desuso, a antiga estrada é facilmente encontrada. Adalberto puxa a fila. No ombro, Joice, o neto, carrega uma cruz de Pau D’Arco. Estão pintados na madeira o nome, apelido, mês e ano da morte de João Bilé, únicos detalhes que resgatamos do nosso antepassado. O tempo comeu muitas outras informações importantes, a exemplo da sua data de nascimento. Luís Pereira, Diogo Maia e Rômulo Maia completam a fila.

Caminhávamos a uns 10 minutos quando Adalberto anuncia que estamos próximos do local. Ele, entretanto, titubeia quanto à localização exata. Nos dividimos. Cada um dos cinco faz a varredura numa área diferente. Vasculho o chão com o olhos quando escuto um grito. “Aqui! Achei!”, anuncia Adalberto.

Percorro 100 metros até me juntar ao grupo. Do lado esquerdo da vereda, na cabeceira de uma encosta e ao lado de uma antiga Baraúna, observamos um toco de madeira queimado e muitas pedras espalhadas em volta. Estávamos diante do local onde 87 anos antes caíra morto João Bilé, tendo como única testemunha o filho Francisco.


Desenterramos o que restava da antiga cruz, destruída pelo fogo de uma broca. (Ainda é costume usual do agricultor sertanejo atear fogo na mata para abrir novos campos de plantio. É o que é chamado de broca.) A peça foi confeccionada em Aroeira, árvore nobre e resistente, típica da nossa região. Havia três palmos de madeira bem preservada chão a dentro. 

Fixamos a nova cruz junto com o que restava da antiga e catamos as pedras, formando novamente um monte. Tudo isso sem qualquer cerimônia. Sequer rezamos, pois nossa empreitada era de resgate histórico e afetivo e, não, espiritual ou de fé.



Missão cumprida, retornamos para nossas casas com a certeza de que um pedaço do nosso passado fora recuperado do esquecimento e ali reerguido para as próximas gerações.  Afinal, conforme registrou Eduardo Galeano no seu “Dias e Noites de Amor e de Guerra”, “quem não sabe de onde vem como pode averiguar aonde vai?”.

Por isso mesmo, atendendo a um pedido de Joice Melo, escrevo esse breve relato. É um registro da viagem ao passado da família Alencar Maia. Quem sabe, um dia, nossos filhos, netos e bisnetos tomem esse documento em mãos para refazer as mesmas tortuosas e empoeiradas veredas?

Outros registros

O corpo de João Carlos de Alencar, o João Bilé, foi sepultado na Capela de São Miguel, localizada na sede do município de Pio IX (PI). Infelizmente, o túmulo foi coberto quando da construção de um anexo do prédio. Os restos mortais jazem sob a obra de tijolo e cimento, num atentado à memória do nosso povo.

Teresa de Alencar Maia faleceu entre os anos de 1929 e 1930 (não consegui informação precisa da data), quando o filho mais novo tinha somente dois anos de vida. Órfãos precocemente de pai e mãe, os irmãos Francisco e João foram criados em lares separados.

Francisco de Alencar Maia, o Chico Arrais, nasceu em fevereiro de 1923. Atualmente com 91 anos, mora em Pio IX. O caçula, João Arrais de Alencar, nasceu em dezembro de 1927 e faleceu precocemente, aos 64 anos, em 1991, na cidade de Salvador (BA). 






terça-feira, 14 de agosto de 2012


SAUDADE

Por Rômulo Maia

A morte é um grande mistério. Até pro poeta, que admitiu não saber se ela “é vírgula, ponto-e-vírgula ou ponto final”. Se ela é uma interrupção breve ou o fim absoluto do que somos, dos nossos sonhos, pensamentos... da nossa história. Ou se é reticências: uma idéia inacabada a espera de conclusão. Não sei!

O que sei é que a morte é uma professora, dessas severas, que ensina duras lições.

Nesses últimos 365 dias, aprendi, por exemplo, o que é saudade. Saudade é uma dor que dói no peito. Não uma dor abstrata, mas uma dor física, que acocha, desorienta e as vezes parece que vai sufocar;

Que saudade é lembrança constante, é lágrima no olho, é choro escondido, é sorriso bobo olhando fotografia antiga;

É a falta do beijo, do abraço, da ligação no dia do aniversário. É a ausência da palavra certeira, dos conselhos, piadas, leituras, da conversa na sala da televisão; do bolo com suco servido como merenda nas visitas apressadas. Porque eu não demorei mais? Saudade é fazer perguntas sem respostas;

É o arrependimento da palavra não dita, da falta de paciência daquele dia, da resposta rude, da agonia boba, da zanga por motivo banal. Por incrível que pareça, saudade é sentir falta até do que a gente imaginava não gostar.

Saudade é também satisfação por ter se doado um pouco, por ter feito parte de momentos alegres e tristes, por ter defendido da palavra injusta, por ter segurado o choro quando foi necessário.  

Sentir saudade é ter a certeza de que “ninguém nunca morre enquanto permanece vivo no coração da gente”. Saudade é o amor que fica.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Brasil pros brasileiro


Brasil pros brasileiro
Por Rômulo Maia

Meus amigo eu vou dizer
Meus amigo eu vou falar
Mostrar pra todos vocês
Nossa saúde como tá

Hospital tudo lotado
Pacientes pelo chão
Não tem médico, nem enfermeira
Nem remédio pro cidadão

Anunciada como maravilha -
A taba da salvação!” -
Esse tal de SUS
Tem matado feito esquadrão

Seja na capital
Ou no mais escondido interior
Nossos governante tem
Roubado com esplendor

O dinheiro da Brahma deles
Do carrão dos menino
É tirado do bolso da gente
Do trabalhador genuíno

A grana das injeção
Dos xarope, dos hospital
São desviado sem vergonha
Pro bolso dos lalau

Enquanto isso o pobre padece
No leito duro do chão
Tendo de travesseiro um colo
E de cama um papelão

O que nois precisa mesmo
É romper com esse modelo
Brigar por um sistema humanizado
Sem todos esse desmantelo


Só assim nossa gente
Não terá mais pesadelo
E dirá com muito orgulho
O Brasil é pros brasileiro!