quarta-feira, 23 de julho de 2014

Encontro com o passado - II

Arquivo da Paróquia de Pio IX (PI) revela detalhes da vida do casal João Bilé e Theresa Arraz 


Local onde João Bilé caiu sem vida no ano de 1927

Por Rômulo Maia

Encontrar o local onde faleceu meu bisavô João Carlos de Alencar, o João Bilé, foi o bilhete de partida para uma viagem ao passado. (contei essa história no post “Encontro com o passado”. Leia AQUI.) Um caminho cheio de veredas enevoadas e cobertas de poeira. Para caminhar por elas é preciso paciência, guias dispostos e ter cuidado para não se frustrar com falsas expectativas. A recompensa vem na forma de papeis antigos e histórias boas de contar sentado na calçada. 

O passar dos anos apagou muitas informações desses antepassados. Não há, por exemplo, qualquer fotografia ou pintura do casal João Carlos de Alencar e Theresa de Alencar Maia. Suas datas de nascimento e morte também são dados ainda ocultos. Porém, pesquisas feitas nos últimos dias lançaram pequenas réstias de luz sobre o que antes era apenas breu.

Repetindo o que disse acima, a cruz foi somente o ponto de partida. Estar no lugar onde João Bilé caiu morto em outubro de 1927 mais atiçou do que trouxe respostas. Garimpar outras memórias e arquivos foi passo natural. A sede da Paróquia de Pio IX era um bom local a ser visitado.

O passado sai do armário


Etiqueta do livro  o livro onde estão registrados os casamentos religiosos realizados em Pio IX (PI) entre os anos de 1910 e 1922


Um sol de rachar juízo ilumina Pio IX naquela terça-feira, 22 de julho de 2014. Entro na sala simples por volta de 10h da manhã. A funcionária da Paróquia de Nossa Senhora do Patrocínio me olha por cima dos óculos com uma interrogação no semblante.

Me apresento e digo o que procuro. De pronto ela levanta, puxa um livro de um armário e deposita-o sobre a mesa. Apontando uma cadeira, diz: “Pode sentar e pesquisar a vontade.”

Sede da Paróquia de Pio IX (PI)


Ali estão os registros de todos os casamentos realizados entre os anos de 1910 e 1922. Abro as páginas amareladas e vou devorando linha por linha com ansiedade. Nomes, casais, testemunhas, datas... Até que me detenho na folha 87. O que procuro me esperava lá. Sorrio e comemoro em pensamento: “Achei!”

E, então, mergulho no passado. Um salto de 93 anos.

O viúvo e a paroquiana

Igreja Matriz de Pio IX (PI) em sua arquitetura original


Quinta-feira, 10 de março de 1921. Em silêncio ou, no máximo, cochichando, o casal aguarda. A economia de palavras e sons é condizente com o local. Eles estão na casa de Deus, onde nenhum alvoroço é bem visto.

João está mais tranquilo. Sabe o que é casar. Viúvo de Emília Alencar, aquela é a segunda vez que sobe ao altar. Mas para Theresa tudo é novidade. Moça do seu tempo, nunca passara por situação parecida.

O Cônego Miguel dos Reis Mello chega, cumprimenta o casal com formalidade e inicia a cerimônia. Estão ali, sob o teto da Igreja Matriz de Pio IX, o religioso, os noivos João Carlos de Alencar e Theresa Arraz Maia e duas testemunhas: José Arraz Maia e Thomas Gomes de Alencar.

O rito é simples. Ele, viúvo, filho de Gabriel de Moraes Rêgo e Liberalina Maria de Alencar, diz “Sim!” para ela, natural e paroquiana da freguesia de Pio IX, filha legítima de Galdino de Barros Arraz e Isabel do Monte Maia. São, agora, marido e mulher, até que a morte os separe. (O que não tardaria a acontecer.)

A cerimônia é registrada em apenas 11 linhas, ocupando apenas 1/3 de folha. Ao final da ata, somente o Cônego Miguel dos Reis Melo assina. A união está consolidada com as bênçãos da Igreja Católica. 

Registro do casamento de João Carlos e Theresa Arraz - clique AQUI para ampliar


A descoberta e uma valiosa dica

Ao buscar os arquivos da Paróquia, tinha como foco descobrir a idade de João e Theresa. A informação, entretanto, não constava no livro de registro dos matrimônios. Mera formalidade da época, o texto padrão escrito pelo Cônego é castrado de detalhes.

Fotografo a página para ler com calma depois. A letra em estilo clássico dificulta a compreensão de algumas palavras. Por exemplo: somente em casa, com a imagem ampliada na tela do computador, “traduzo” que João Bilé já fora casado uma primeira vez. A informação está nas linhas cinco e seis da ata:

“(...) elle viúvo por falecimento de Emília Alencar (...)”

Após ler e reler diversas vezes o documento, transmito as novidades para alguns familiares. Lamento não ter descoberto a idade dos antepassados, mas prometo aprofundar as buscas, mesmo sem saber por onde recomeçar. Mas não tardou surgir uma valiosa dica. 


Veio de Teresina (PI). Em tratamento de saúde na capital do Estado, Francisco de Alencar Maia, o Chico Arrais [foto acima], 91 anos, filho de João Bilé e Theresa Maia, manda avisar. É a filha Joiceneide Maia quem me telefona:

“Contei as novidades para papai. Ele sugeriu que você procure no Cartório. Pode ser que tenha alguma coisa registrada por lá.”

É o que faço ao desligar o telefone.

(continua)   

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