sexta-feira, 25 de julho de 2014

Encontro com o passado - III

Documento faz referência à idade de João Bilé e Theresa no dia do casamento
Certidão traz primeira assinatura de Theresa com nome de casada
 



Por Rômulo Maia

O sol está a pino. É quase meio dia. Caminho apressado pela calçada quando uma voz me detém:

“Ei Rômu, espera aí.”

Era Nivardo Saldanha. Do interior de uma sala da Prefeitura, me viu passar e chamou afim de jogar conversa fora. Amigo da família de longas datas, Nivardo é profundo conhecedor da árvore genealógica das famílias povoadoras de Pio IX (PI). O que lhe impede de ser rica fonte de pesquisa é a cerveja, companheira quase inseparável. E pelo hálito logo percebi que os dois já haviam andado juntos naquela manhã.

Mesmo assim compartilho meu achado no livro da Paróquia de Nossa Senhora do Patrocínio. Sei que o assunto lhe desperta interesse. “Foi mermo? João Bilé era viúvo”, me pergunta admirado. Confirmo e falo da intenção de ampliar a pesquisa nos arquivos do Cartório de 2º Ofício João Elói Bezerra [foto abaixo].       

Com ar sério e tom protocolar, Nivardo pede um particular, me puxa para o interior de uma sala vazia da prefeitura e confidencia:

“Lá você num consegue nada. Já tentei num sei quantas vez e nunca me deram nada. Nenhum documento!”

“Mas não custa tentar”, respondo.

E ele diz: “Pois eu vou com você pra assistir a conversa.”

Ganhamos a rua. O cartório dista dali apenas umas cinco casas.

Nomes rabiscados numa garra de papel



Encosto no balcão de madeira e espero Paulo Bezerra, dono do Cartório, despachar uma pessoa. Nivardo Saldanha, ao meu lado, apenas observa. Tenho a leve impressão que ele torce para ter a previsão confirmada.

Ao desocupar, Paulo nos dá atenção. Apresento a demanda: desejo pesquisar os óbitos registrados em Pio IX entre os anos de 1927 e 1930. A maior vontade é descobrir a data precisa do nascimento e morte de João Carlos de Alencar e Theresa de Alencar Maia. Quem sabe até a causa do óbito de ambos.

O dono do Cartório me olha em silêncio. Depois puxa uma garrinha de papel em branco, pede que eu repita o nome do casal e anota. Justifica, então, que os arquivos são de manuseio delicado e que não pode me dar acesso. Mas promete ele mesmo buscar.

Não chegou a ser um balde de água fria... só uns respingos.

Será que Nivardo tinha razão? Raciocino que uma pessoa sem interesse na história de João e Theresa dificilmente faria uma pesquisa acurada. Mas não insisto. Solto um “Tá bom!” dos mais chochos e pergunto que dia retorno.

“Hoje mesmo, umas quatro da tarde. Se o Cartório tiver fechado, pode chamar aqui em casa”, orienta Paulo.

Saio de lá sem olhar para os lados. Sinto que Nivardo pode mangar da minha cara.    

Quebrando a cara

Quando dou conta o relógio já marca cinco e meia da tarde. A tarde passou e esqueci de retornar ao Cartório. Pior: aquele é horário de janta. Quem já se viu chegar na casa dos outros na hora da refeição? Tremenda falta de educação.

Faço hora até anoitecer e chamo Luis Pereira, meu pai, para ir comigo até a casa de Paulo Bezerra. Ele topa.

Mal estacionamos o carro e noto movimento no interior da residência. Parece que Paulo já nos esperava. Ele se achega ao portão e, enquanto tenta destrancar o cadeado, manda sem arrodeio:

“Procurei nos registros de 1927 até 1935 e não achei nada de nenhum dos dois.”

Luis Pereira pesquisa documento observado por Paulo Bezerra, dono do Cartório João Elói Bezerra


O balde entornou na minha cabeça. Porém, antes que eu sentisse a água fria escorrer pelo espinhaço, Paulo prossegue:

“Mas achei o livro onde tem a ata do casamento civil deles. Serve?”

“Posso ver?”, pergunto feito gente besta. Se Paulo teve o trabalho de procurar o documento, faria sentido não me deixar ver? Acho que por isso mesmo ele sequer respondeu. Apenas atravessou a rua, rumando para o Cartório.

O livro já nos esperava sobre uma mesa. Ele folheia com cuidado e abre na página do nosso interesse.

Theresa vira “Dona” e muda assinatura

A tarde cai sobre a mata verde. É março, tempo de chuvas no sertão.

São 17h de 13 de março de 1921. No horário em que os bichos buscam aconchego para dormir, João e Theresa preparam-se para confirmar sua união. Três dias antes eles já haviam recebido as bênçãos da Santa Igreja Católica.

A cerimônia acontece na própria casa de João Bilé em Pio IX (PI). Além do casal, estão presentes o segundo suplente de juiz em exercício Osterno Ernesto de Alencar, o oficial privativo do registro Antônio Luiz Carlos de Alencar e as testemunhas Carlos de Alencar Lima e Eugenio Gomes de Alencar.

João tem trinta anos, quatro a mais que Theresa, então com 26. Lavrador nascido no Ceará, ele casara a primeira vez aos 21 anos, mas logo enviuvou. A união com Theresa é a esperança de constituir novamente uma família.

A pena corre sobre o papel. A letra grande e caprichada já ocupa uma folha e meia do livro. Na ata preparada por Antônio Luiz, representante do Cartório, constam o horário do casamento, o nome de todos ali presentes, a filiação e a naturalidade dos noivos.

O documento [imagem abaixo] trata Theresa como “Dona”, condição adquirida a partir do casamento no religioso. Também é registrado ali seu novo sobrenome. O “Arraz” desaparece da assinatura, substituído pelo “de Alencar” do esposo.

A partir dali, legalmente e para todos os efeitos, a jovem e solteira Theresa Arraz Maia sai de cena para a entrada de Dona Theresa de Alencar Maia.



Agora todos devem assinar o termo, validando, assim, a cerimônia. Entretanto, João Carlos, o João Bilé, é analfabeto. Não sabe ler nem escrever. A saída é pedir que a testemunha Carlos de Alencar Lima rubrique em seu lugar.

Resolvido o problema, assinam, nesta ordem: o juiz Osterno Ernesto de Alencar, o representante do noivo João Carlos de Alencar, a noiva Theresa de Alencar Maia, as testemunhas Carlos de Alencar Lima e Eugenio Gomes de Alencar e, por fim, Antônio Luiz Carlos de Alencar, oficial de registro.

João e Theresa estão, enfim, casados no civil e religioso. São marido e mulher pela lei e pela fé.

Arrepio de satisfação


Leio até a última linha e um arrepio de satisfação percorre o corpo. “Nivardo queimou a língua”, comentei com Luis Pereira. As certidões de óbito não foram localizadas, mas consegui acesso a um documento tão valioso quanto.

Naquela certidão consta, pela primeira vez, uma referência à idade do casal. A partir disso concluo que João Bilé, que casou aos 30, nasceu em 1890 ou 1891. Quando faleceu, em 1927, tinha 36 ou 37 anos.

Já Theresa nasceu em 1894 ou 1895. Ao falecer – no final de 1929 ou início de 1930 – tinha entre 34 e 35 anos.

(A imprecisão quanto ao ano de nascimento de ambos deve-se ao fato de não haver certeza se João e Theresa já haviam aniversariado quando dos casamentos, em março de 1921.)

O documento traz ainda um achado único: naquela folha, pela primeira vez, Theresa assina com seu nome de casada: Theresa de Alencar Maia.

Mais perguntas

Mesmo sabendo que já percorri valiosas trilhas, ainda há perguntas sem respostas. A mais intrigante? Quem foi Emília Alencar, primeira esposa de João Bilé?

(continua) 

Nenhum comentário:

Postar um comentário