segunda-feira, 21 de julho de 2014

Encontro com o passado - I

Família encontra local onde antepassado faleceu há 87 anos
Local era demarcado por cruz e fica na margem de estrada abandonada




Por Rômulo Maia

21 de julho de 2014. Guiados pela memória de Adalberto Antão de Alencar, percorremos veredas antigas e abandonadas em busca de nossa história. Aos 74 anos, ele chama pelas lembranças de menino e nos leva para uma jornada no tempo.

A morte de João Bilé

O ano é 1927. João Carlos de Alencar, o João Bilé, caminha pela estrada com o filho Francisco, então com 4 anos. A paisagem que os cerca é árida e cinzenta. O sol inclemente do mês de outubro expulsara há muito o verde que as gotas do inverno fizera brotar.

Por um momento Francisco se distrai. E, quando dá conta, encontra João Bilé caído na margem da estrada, desacordado. Ainda destreinado das perversidades da vida, pensa que o pai dorme um sono profundo. Bilé não acorda por nada. O menino então, em carreira desabalada, busca por ajuda nas fazendas próximas.

Chegando ao local, os mais velhos constatam a morte do agricultor. Morte súbita, sem dor ou chances de socorro. João Bilé faz a derradeira viagem deixando no mundo o filho Francisco e a esposa Teresa de Alencar Maia grávida de 7 meses – na barriga, João, que nasceria dali a dois meses.

O lugar onde Bilé tombou foi demarcado com uma cruz, mas permaneceu oculto e esquecido por longos anos, desde quando a antiga estrada caiu em desuso. Quando menino, Adalberto Alencar cruzou muitas vezes aquele marco. Morava na fazenda Jardim, a 1 quilômetro dali. “Passei muito por aqui. Era até costume a pessoa botar uma pedra no monte sempre que passava pela cruz”, relembra.

Reencontro com o passado


Foi puxando por essas lembranças que Adalberto guiou um neto e dois bisnetos de João Bilé – Joice Melo, Diogo e Rômulo Maia de Alencar, respectivamente – ao local onde o antepassado morreu. Completava a comitiva Luis Pereira de Alencar, casado com Joicileide Melo, neta de Bilé.

A viagem começou na cidade de Pio IX. Percorremos 6 quilômetros de carro até a fazenda Jardim. O restante do percurso foi a pé – uma caminhada de mais ou menos 1 km mata a dentro.

Apesar do desuso, a antiga estrada é facilmente encontrada. Adalberto puxa a fila. No ombro, Joice, o neto, carrega uma cruz de Pau D’Arco. Estão pintados na madeira o nome, apelido, mês e ano da morte de João Bilé, únicos detalhes que resgatamos do nosso antepassado. O tempo comeu muitas outras informações importantes, a exemplo da sua data de nascimento. Luís Pereira, Diogo Maia e Rômulo Maia completam a fila.

Caminhávamos a uns 10 minutos quando Adalberto anuncia que estamos próximos do local. Ele, entretanto, titubeia quanto à localização exata. Nos dividimos. Cada um dos cinco faz a varredura numa área diferente. Vasculho o chão com o olhos quando escuto um grito. “Aqui! Achei!”, anuncia Adalberto.

Percorro 100 metros até me juntar ao grupo. Do lado esquerdo da vereda, na cabeceira de uma encosta e ao lado de uma antiga Baraúna, observamos um toco de madeira queimado e muitas pedras espalhadas em volta. Estávamos diante do local onde 87 anos antes caíra morto João Bilé, tendo como única testemunha o filho Francisco.


Desenterramos o que restava da antiga cruz, destruída pelo fogo de uma broca. (Ainda é costume usual do agricultor sertanejo atear fogo na mata para abrir novos campos de plantio. É o que é chamado de broca.) A peça foi confeccionada em Aroeira, árvore nobre e resistente, típica da nossa região. Havia três palmos de madeira bem preservada chão a dentro. 

Fixamos a nova cruz junto com o que restava da antiga e catamos as pedras, formando novamente um monte. Tudo isso sem qualquer cerimônia. Sequer rezamos, pois nossa empreitada era de resgate histórico e afetivo e, não, espiritual ou de fé.



Missão cumprida, retornamos para nossas casas com a certeza de que um pedaço do nosso passado fora recuperado do esquecimento e ali reerguido para as próximas gerações.  Afinal, conforme registrou Eduardo Galeano no seu “Dias e Noites de Amor e de Guerra”, “quem não sabe de onde vem como pode averiguar aonde vai?”.

Por isso mesmo, atendendo a um pedido de Joice Melo, escrevo esse breve relato. É um registro da viagem ao passado da família Alencar Maia. Quem sabe, um dia, nossos filhos, netos e bisnetos tomem esse documento em mãos para refazer as mesmas tortuosas e empoeiradas veredas?

Outros registros

O corpo de João Carlos de Alencar, o João Bilé, foi sepultado na Capela de São Miguel, localizada na sede do município de Pio IX (PI). Infelizmente, o túmulo foi coberto quando da construção de um anexo do prédio. Os restos mortais jazem sob a obra de tijolo e cimento, num atentado à memória do nosso povo.

Teresa de Alencar Maia faleceu entre os anos de 1929 e 1930 (não consegui informação precisa da data), quando o filho mais novo tinha somente dois anos de vida. Órfãos precocemente de pai e mãe, os irmãos Francisco e João foram criados em lares separados.

Francisco de Alencar Maia, o Chico Arrais, nasceu em fevereiro de 1923. Atualmente com 91 anos, mora em Pio IX. O caçula, João Arrais de Alencar, nasceu em dezembro de 1927 e faleceu precocemente, aos 64 anos, em 1991, na cidade de Salvador (BA). 






2 comentários:

  1. Parabéns aos primos pela descoberta e pelo resgate à nossa história. Quando for a Pio IX visitarei esse local!

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  2. É muito importante que se conheça a história de nossa gente e preserve viva essas memórias através das gerações.Que lindo isso que você está fazendo, Rômulo Maia! Vá em frente! Sucesso.

    Meire de Alencar C. B. Castro

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